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    quarta-feira, 7 de agosto de 2019

    CUT demite, pode mudar de prédio e afunda na maior crise sindical já vivida

    Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), está cada vez mais longe do poder e mais perto de Deus. Para fazer dinheiro, a entidade — a maior das centrais sindicais, braço político do petismo agora derrotado — sairá do prédio próprio no bairro do Brás, em São Paulo, sua sede há 23 anos, para um endereço no centro antigo da cidade. 


    No fim de julho, a Executiva da CUT aprovou a venda do local. Avaliado em R$ 40 milhões, o imóvel com sete andares está sendo negociado com a Igreja Mundial do Poder de Deus, que ocupa um quarteirão inteiro do outro lado da rua. O negócio ainda não foi fechado, mas Freitas já decidiu pela saída do Brás, o berço do sindicalismo paulista. O fim da contribuição sindical obrigatória, levado a cabo pela reforma trabalhista do governo Michel Temer, levou a CUT à bancarrota.

    Apesar de todo o simbolismo da mudança, a decisão pela venda da sede parece fácil, quase corriqueira, diante do desafio de encarar o futuro governo de Jair Bolsonaro. Freitas lembrou o dia da votação do impeachment de Dilma Rousseff, quando deputados justificavam seus votos em voz alta no plenário. Um deles, Fernando Francischini, então do PSD, votou “pelo fim da CUT e seus marginais”. Francischini é um parlamentar próximo ao presidente eleito.

    Numa sexta-feira nublada do começo de novembro, um almoço de trabalho de Freitas com dirigentes dos maiores sindicatos filiados à central sindical avançou pela tarde. Químicos, bancários e metalúrgicos, entre outros, discutiam como dar a volta por cima diante de um governo assumidamente de direita, eleito com uma agenda liberal e com uma pauta que vai contra tudo o que os sindicatos cutistas defendem. Preocupam os discursos cada vez mais frequentes contra direitos como 13º salário, apelidados por bolsonaristas de “jabuticabas” — por existirem somente no Brasil, assim como a fruta. “Não é terrorismo, não é ameaça. Ele fala o que vai fazer, e não tenho dúvida de que fará. A reforma trabalhista aprovada pelo Michel Temer, para ele, é tímida, e o que ficou ele vai tirar”, disse.

    Freitas não vê possibilidade de moderação por parte do novo governo, mas ele próprio pregou o radicalismo. À época do impeachment da petista Dilma Rousseff, falou em pegar em armas contra a deposição da presidente. Hoje atribui sua afirmação a um “jargão sindical”. “Era a arma da greve, da manifestação e de ocupar Brasília democraticamente. Essa fala ficou démodé”, desconversou.

    No começo deste ano, Freitas teve de fazer aquilo que, por dever de ofício, tenta evitar que as empresas façam: demitir. Com um Plano de Desligamento Incentivado, a CUT demitiu 65 pessoas, cerca de 45% do quadro de pessoal. Quem se inscreveu no plano recebeu entre 80% e 100% do salário por ano trabalhado, mais extensão do plano de saúde por três a seis meses e os demais benefícios previstos em lei.

    Sem dinheiro, Freitas disse ser possível que a CUT faça coisas que nunca fez, como abrir seus sites para a venda de patrocínio. “A CUT não tem capital financeiro para viver de rentismo, não é indústria para fabricar coisas e vender, não tem herança. Acabou o recurso, você precisa se adaptar, não tem jeito.” A venda da sede no Brás é parte dessa nova fase.

    Quanto ao governo Bolsonaro, Freitas é bem menos otimista. “Tentam nos secar financeiramente. Querem nos fazer abaixar a cabeça, mas quero dizer que continuamos aqui, continuamos incomodando. Defendemos nosso ponto de vista, mas aceitamos o ponto de vista contrário. Somos uma instituição vinda da democracia. Mas fomos forjados na ditadura e temos couro grosso.”

    Época

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