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    4 de mai. de 2020

    Desigualdade de contaminação põe pressão em reabertura e coloca pobres em risco, diz estudo

    Que é preciso achatar a curva de contaminações pelo novo coronavírus para evitar uma corrida aos hospitais e, por consequência, um colapso do sistema de saúde, pouca gente discorda. Mas que curva é essa?

    Pesquisadores brasileiros sugerem que, na verdade, são duas curvas: a dos mais ricos, já algo mais controlada, e a dos mais pobres, em franca ascensão. Isso faz com que as medidas de isolamento tenham menos apoio na elite e que haja uma pressão maior para se afrouxar as restrições, colocando os mais pobres em risco.

    É o que sugerem os pesquisadores Guilherme Lichand (professor da Universidade de Zurique), Onício Leal-Neto (pós-doutorando em Zurique) e Guilherme Prokisch (matemático pela USP) em artigo feito analisando dados de uma plataforma que tenta captar o avanço do vírus de acordo com sintomas relatados pela população.

    Os pesquisadores usaram informações de usuários do Colab, startup que faz parcerias com governos e, em épocas normais, é usado mais como um aplicativo de celular para ajudar na zeladoria urbana, em que os usuários indicam problemas na cidade, como lixeiras quebradas e buracos na rua.

    A empresa se juntou com a Epitrack, uma companhia especializada em detectar epidemias. Da junção saiu o Brasil Sem Corona, que reúne e analisa as respostas dos participantes.

    Diariamente, o aplicativo estimula os usuários a responderem a algumas perguntas, como "Você está se sentindo bem?", "Você já fez teste laboratorial para Covid-19", "Você reside com uma pessoa com mais de 60 anos?" e "Quais são seus intomas?", entre outras. Além das respostas, a plataforma leva em conta ainda o deslocamento do aparelho.

    O método é chamado vigilância epidemiológica participativa.

    A análise feita pelos pesquisadores usou informações de usuários da cidade paulista Santo André, onde o app tem parceria com a prefeitura e os resultados seriam mais consistentes, diz Linchand.

    Do total de cerca de 1.500 usuários da cidade, o grupo analisou as respostas de 350 deles, grupo do qual tinham dados socioeconômicos.

    "O dado não é perfeito. Qualquer aplicativo vai ter uma amostra mais jovem e com renda maior do que a população, mas tudo isso foi levado em conta", afirma Linchand, doutor em economia política e governo pela Universidade Harvard,

    Os dados levantados pelos pesquisadores mostram que as pessoas de classes sociais A e B (com renda domiciliar acima de R$ 8.159) relatam ter cada vez menos sintomas. Já as pessoas de classe D e E (renda abaixo de R$ 1.892) relatam mais sintomas ao longo das semanas.

    Quando se olha os dados de onde estão essas pessoas com mais sintomas da doença, o aplicativo mostra uma concentração maior de casos sintomáticos em regiões mais vulneráveis da cidade.

    "É natural esperar que, diante disso, a pressão das classes mais altas para reabertura da economia se tornem mais fortes, com custos potenciais bastante altos para aqueles que ainda estão expostos à curva em fase de crescimento do número de casos, e sem as mesmas condições de acessar equipamentos de saúde com capacidade suficiente para atender demanda elevada", conclui relatório dos pesquisadores.

    Os dados da plataforma mostram ainda que, enquanto 76% das pessoas das classes D e E dizem que estão há mais de 20 dias em quarentena, nas classes A e B essa proporção é de 38%.

    Entre os mais pobres, 83% relataram sair apenas para atividades essenciais, enquanto entre os mais ricos o percentual foi de 35%.

    "Quem é de classes mais pobres é forçado a sair com um pouco mais de frequência, não tem a mesma condição de pedir delivery, por exemplo. Mas quando faz isso, o tem feito só para fins essenciais - tem se atentado mais à quarentena", afirma Linchand.

    "A gente começou com essa história de que a doença era democrática, que não respeitava limites ou fronteiras. Mas é inegável que acaba sendo um desafio maior para as pessoas de renda mais baixa. Não é uma vantagem do coronavírus, existe uma série de doenças que são negligenciadas por não terem uma prevalência em pessoas com renda maior", diz Leal-Neto, doutor em saúde publica e epidemiologia pela Fundacao Oswaldo Cruz.

    "Além da doença em si, existe a percepção do risco da doença, que é um fator preponderante para que o indivíduo entenda o cuidado de não ser um transmissor."

    Vigilância participativa

    O método, usado pelos pesquisadores, "é complementar aos sistemas de vigilância epidemiológica tradicionais, que só contabilizam o doente quando a pessoa chega no sistema de saúde. Mas entre ter o sintoma e chegar ao sistema, existe uma lacuna, que é onde mora a subnotificação", diz Leal-Neto

    O pesquisador conta que a ideia da vigilância participativa surgiu em 2003 na Europa, quando um grupo de países decidiu perguntas a internautas se tinham sintomas da influenza.

    No Brasil, foi usado pela primeira vez em 2014, durante a Copa do Mundo, numa plataforma adotada pelo próprio Ministério da Saúde para rastrear o surto de sarampo.

    "Na Olimpíada de 2016, desenvolvemos uma nova plataforma. Naquele momento a preocupação eram as arboviroses, principalmente o vírus da zika. Poderia ser catastrófico se começasse a espalhar para estrangeiros também", afirma.

    Os dados têm limitações e são apenas complementares, reconhecem os estudiosos. "O Brasil sem Corona consegue dar um diagnóstico do Brasil? Não. Mas consegue apresentar tendências em São Paulo, Santo André, Teresina, Caruaru, Rio de Janeiro, cidades onde a base é maior", diz o epidemiologista.

    "A ideia é tentar capturar esses casos que não vão para o sistema. E não é um autodiagnóstico, a plataforma não responde se a pessoa está com a Covid-19 ou não."

    DN

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